terça-feira, 10 de novembro de 2009

Alice in Wonderland


Estou a meio de um livro fantástico. Por muitos considerado um mero livro para crianças, escrito por alguém com uma visão contrária e um tanto absurda da realidade, mas o que é a realidade?
Estou a falar de Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll... É muito mais que uma simples história confusa com cenários impossíveis para as pessoas "adultas", improváveis para os que preferem acreditar apenas no que vêem, mas muito real para as pessoas que gostam de sonhar, beber chá com chapeleiros loucos e lebres de Março, falar com gatos que desaparecem e apenas deixam o sorriso para trás momentaneamente suspenso no ar, bebés que se tranformam em porcos, coelhos brancos que andam sempre atrasados, lagartas, ratos, todo o tipo de coisas absurdas e maravilhosas que possam imaginar, não estivéssemos nós a falar do País das Maravilhas.
É um livro que nos obriga a imaginar os locais estranhos onde tudo decorre, as constantes mudanças de tamanho de Alice, as suas tentativas de chamar os loucos à razão, e se repararem no texto estão presentes certas questões pertinentes, como quem será realmente ela mesmo depois de todas as mudanças físicas, passando de um gigante a um pequenino ser de oito centímetros, que como afirma a lagarta nada de insignificante tem esta altura...
É um livro pequenino que lendo apenas umas linhas nos cativa devido à sucessão inesperada de acontecimentos, a imaginação de Carroll em relação às descrições, a facilidade com que tornou uma história aparentemente sem sentido numa das histórias mais conhecidas pelas crianças e adultos... Dêem uma espreitadela no livro e imaginem a pequenina e aventureira rapariguinha como vestido azul, o avental branco, loira, com uma fita no cabelo e à procura de algo de interessante para fazer, algo mais que ouvir uma história vinda de um livro sem gravuras nem diálogos, porque razão se fazem livros sem gravuras nem diálogos?
Percam um pouco do vosso tempo e entrem num mundo magnífico que apenas lhes abre as portas para criarem a vossa própria versão da história. Qual a próxima peripécia de Alice?
Ainda só vou a meio mas tenciono acabar rapidamente e tentar realmente cativar-vos a ler este livro.

domingo, 8 de novembro de 2009

Obrigada pelas memórias

Como é que certas ligações permanecem no tempo, aparentemente imutáveis... Já não falava contigo há anos, nem recordo a última conversa que tivemos. Cruzo-me contigo regularmente mas não tenho coragem suficiente para te dizer um simples olá, não sei porque, talvez porque deixámos de nos falar abruptamente, depois daquele beijo. Sim, ainda recordo aquele beijo, acho que tudo mudou depois daí... Tínhamos algo diferente, éramos amigos acima de tudo, e sinto que agora ainda o somos, apesar das apenas breves palavras que trocámos acabaste por desabafar comigo, não te limitaste à simplicidade do relato agradável da tua vida, contaste-me o que te magoava, e isso tocou-me...
Não sei porque escrevo isto, não sei porque razão decidi escrever algo tão insignificante para ti, para mim, para todos... Mas preciso de guardar as boas memórias fora de mim, da minha mente, da memória afectada progressivamente com o tempo, as memórias a tornarem-se imagens esbatidas, como uma obra-prima que ninguém decidiu tentar restaurar, um momento perdido pelo tempo, trazido pelo tempo e levado pelo tempo, como uma breve aragem de Verão que surge e desaparece repentinamente, arrepiando-nos ligeiramente com a sua passagem, algo que esquecemos, algo apagado automaticamente da memória, mas tudo, tudo o que foi aquilo, tudo o que se passou preciso de recordar... Não sei definir o que tivemos mas preencheu-me, preencheu o vazio em mim, iluminou-me, obrigada por isso... Pelas memórias.

Sem sentido aparente

Estou feliz. Não sei qual a razão para estar assim, não sei quando surgiu, de onde veio, mas sinto-me feliz... Apetece-me saltar, andar pela rua a cantar musiquinhas engraçadas, a fazer figuras sem me importar com os olhares pousados em mim, a pensarem que endoideci, sem verem que apenas voltei a viver...
Apetece-me andar descalça apesar de lá fora o orvalho gelado molhar a relva e o ar não ultrapassar os 10º C, apetece-me deitar lá fora e olhar o céu, ouvir o silêncio, ouvir os sons da cidade, vozes...
Sorrir. Rir. Chorar no meio de gargalhadas descontroladas, até chegar a uma altura em que não me lembro da razão pela qual comecei a rir.
Quero voar, lá bem alto, lembrar-me por instantes dos momentos infantis em que sonhava voar com os pássaros e percorrer o mundo com uma vista privilegiada...
À minha volta não há aquelas cores pastel, cinzentos, pretos, a minha visão hoje está ligeiramente alterada... como se tivesse caído directamente na toca do coelho e tudo à minho volta fosse confuso e sem sentido...
Vejo cores garridas, um mini sol pendurado no tecto, as paredes brancas estão mais coloridas que o arco-íris, um cascata desde a minha janela, animais a falar do lado de lá, onde estou eu?

-Coelho branco, espera aí, onde vais?
-Estou atrasado...
-Espera por mim...

sábado, 7 de novembro de 2009


Quero Good River outra vez...


sábado, 31 de outubro de 2009

I miss you

À volta dela tudo é confusão, as pessoas movimentam-se rapidamente aliciadas pela euforia, a música torna praticamente impossível ouvir alguém lhe tenta dizer algo, as cores garridas prendem o seu olhar, assim como os diversos divertimentos característicos de feiras populares...
Ela tenta abstrair-se de todo este ambiente, perscrutando tudo com olhar, procurando aquela pessoa tão conhecida nos imensos rostos que a rodeiam, procurando a energia tão característica daquela pessoa que lhe faz tanta falta...
Já não a vê há um mês. Não. Ainda só passaram duas semanas desde que se viram pela última vez, mas o tempo parece passar cada vez mais devagar, separando-as por ainda mais tempo, parece que entre cada fim-de-semana não estão apenas 5 dias, mas 10 ou 15 dias, imenso tempo sem a ver, muito mais do que aquele que ela consegue suportar sem sentir a sua falta...
Procura no meio do ambiente de circo, e finalmente vê. A rapariga com cabelo arrapazado, com uma atitude incrivelmente despreocupada. Olham-se por instantes e percorrem a correr os metros que as separam. Inicialmente parece-lhe difícil mover-se mas em menos de um segundo já estão juntas, num abraço apertado, sentido...
Por mais que queira, por mais felicidade que ela sinta, não consegue evitar. Toda a saudade contida, todas as conversas breves ao telefone com despedidas repentinas, tudo isso culmina neste maravilhoso momento.
Ela sente-se ela. Encontra-se naquele abraço e chora. Chora...

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Chorar...

Houve uns dias em que decidi procurar umas citações de filósofos e escritores "famosos", desconhecidos para muitíssima gente, e encontrei uma que particularmente me interessou:

"E se não choras, de que costumas chorar?"

Eu sou uma chorona autentica e choro imenso quando estou sozinha, sou muito frágil apesar de às vezes não parecer, muitas vezes escondo a minha fragilidade com um sorriso para que as pessoas que me magoaram e magoam não se apercebam do mal que me fazem...

E esta frase levou-me a pensar como é que as pessoas que não são assim tão sentimentais como eu reagem às coisas, como é que vivem se não expressam praticamente aquilo que sentem, será que choram à noite, ou simplesmente se afastam completamente do mundo sem ninguém reparar limitando-se a uma existência elementar, baseada em relacionamentos ocasionais e amizades praticamente falsas, para não terem de mostrar o seu verdadeiro eu?

Decerto que há pessoas que simplesmente não se sentem à vontade de contar aos outros aquilo que se passa na sua vida, eu tenho necessidade de desabafar, tenho os meus amigos que estão dispostos a ouvir-me e a ver-me chorar muitas vezes, a ver-me chorar e esperar em silêncio que as lágrimas sequem, mesmo que eu não profira uma palavra e que eles simplesmente estejam ali, a ver-me naquele momento de fraqueza sinto-me protegida, sinto que alguém se preocupa comigo, alguém abdica do seu tempo para esperar por um sorriso meu.

Mas voltando à frase, a minha forma de a interpretar é muito simples, se tu não choras habitualmente, ou se não choras de todo, o que é que te magoaria o suficiente para te levar a chorar? Uma pessoa aparentemente inatingível, inquebrável, insuperável, porque é que chora? Será que chora quando já ninguém olha?

O que te faz chorar a ti?

terça-feira, 27 de outubro de 2009

3 meses, 20 dias e 49 segundos

Porque não choro? O que me leva a sorrir?
Os meus olhos estão secos, não tenho motivos para chorar, mas será isso bom ou mau, será que apenas não choro porque não estou a viver? A razão para não experimentar essa sensação e necessidade de derramar estas gotas salgadas tão presentes no meu passado deve-se a não estar a aproveitar o presente?
Quem sabe apenas esteja a aproveitá-lo demasiado bem, a encarar as coisas positivamente, ou talvez seja apenas eu que mudei.... tornei-me mais forte, mais resistente.
Continuo uma sonhadora. Sim. Uma sonhadora inalcançável e incomparável, continuo a sonhar que ainda estou naquele quarto, naquela aldeola no meio do nada, no fim do mundo, onde fui feliz, onde ri e fui eu mesma, onde fortaleci os laços que me ligavam às pessoas que tanto importam para mim, locais onde ficaram segredos, de onde trouxemos inúmeras memórias...
Naquela casa de onde fugimos às três da manhã para regressarmos à alvorada, onde chorámos por motivos estúpidos e por termos saudades de pessoas que preencheram os nossos pequeninos corações por um semana...
Já alguma vez abraçaram castanhieris? Já dançaram até cair e viveram verdadeiros momentos à filme que provocam gargalhadas infinitas, como a do amiguinho....
Se neste momento me perguntassem se choro, dir-lhes-ia que não, chorava antes de partilhar momentos magníficos com pessoas especiais que adoro, e que sabem que as adoro e admiro, que simplesmente me fazem sorrir e me surpreendem a cada dia, em cada conversa, a cada momento com as suas atitudes inesperadas, a forma como me fazem não chorar...
Não choro há 3 meses, 20 dias e 49 segundos, e sinto-me feliz... Quando foi a última vez que tu choraste?

Memórias de Verão I

Este Verão foi algo que ficou gravado na minha memória, pelos momentos divertidos, a alegria quase constante, os sustos, os erros, os amigos, as despedidas, ...

Todos os dias sinto que revivo esses momentos, enquanto me sento numa cadeira na escola, "ouvindo atentamente" aquilo que os professores dizem, recordando a liberdade desses instantes em que não nos preocupámos com as consequências e vivemos.

Recordo o dia em que saímos sorrateiramente, as três, pela porta ao fundo do corredor que ninguém usa, aquela que faz um barulho estridente... em que começaste a tossir para que não se ouvisse, e eu e a Catarina descemos as escadas e nos sentámos no sofá, eu a fingir que tinha descido para beber água e ela simplesmente por estar comigo... Lembro as gargalhadas sonoras que soaram quando estávamos já longe de casa porque eras apenas tu a tossir...
Eu tremia, não de frio, de medo de sermos apanhadas, mas nada disso nos aconteceu...
Corremos a aldeia toda praticamente às escuras, apenas com as luzes das festividades da aldeiasinha... a Catarina agarrada a mim porque tem medo de cães. E o cão que nos assustou porque apareceu no exacto momento em que eu disse "Não te preocupes, aqui não há cães"? Há animais que deviam melhorar o seu sentido de oportunidade...

O café estava a aberto... Mas como? Eram três da manhã, portanto não é algo normal...
Entrámos e seguiram-se um milhão de peripécias engraçadas, pessoas a entrar e a sair, piadas partilhadas com amigos de Verão...
Mais tarde corremos até casa de uns amigos, tu tentaste tocar piano, infrutiferamente, não conseguias controlar propriamente os teus movimentos, nenhuma de nós conseguia, e a Catarina seguiu-se a ti, tocando as notas certas mas num tom altíssimo que devido à porta estar aberta ameaçava acordar os vizinhos...
Descemos as escadas a correr e caímos de cu, rimo-nos como loucas, até que nos decidimos levantar e ir embora...
Lembro-me que pelo caminho vi estrelas cadentes, e que a Catarina chorava agora agarrada a mim porque um cão nos estava seguir, ao estado a que as pessoas chegam com as suas fobias.... (ela sabe que estou a brincar...), mais ninguém as viu naquela semana, estávamos todas demasiado felizes para reparar no céu, todas menos eu, mas isso já são outras histórias...

Que insignificante, este relato, comparado com tudo o que aquele Verão significou para mim e para elas, ... Mas é assim que vou terminar o texto "Memórias de Verão I".

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Notas soltas

Este é um texto para as pessoas que acham que a música clássica,em piano e jazz é algo antigo e ultrapassado...
Já ouviram as majestosas notas de uma composição de Yann Tiersen? Como a valsa d'Amelie, ou Comptine d'un autre été, melodias que não precisam de um acompanhamento como a voz humana porque já são músicas completas, quando me concentro nas notas, dependendo do meu estado de espírito há uma letra, uma série de pensamentos diferentes e emoções que são provocados pela beleza e magnificência destas obras de arte...
Mozart, Bach, Chopin, Debussy, Beethoven, todos nomes conhecidos por quase toda a gente, melodias que encontramos em belíssimas caixas de música, porém ninguém incentiva os jovens de hoje em dia a interessarem-se por este tipo de música, temos de a encontrar à nossa maneira e de alguma forma tentar reinseri-la no quotidiano da sociedade que vive acompanhada por músicas comerciais, que não carregam nenhuma emoção em si, músicas sem paixão, músicas sem história, há quem chame àquilo que passam nas discotecas música apesar de serem apenas duas ou três notas tocadas em sequências diversas. Nas ruas vivemos rodeados dos barulhos do tráfego, de conversas alheias cujas palavras não conhecemos. Por vezes cruzamo-nos com um ou outro músico de rua e não lhe prestamos atenção, pensamos que é apenas mais um que pensa que pode fazer música, mas eu recordo-me de uma vez em Paris, quando me cruzei no metro com um saxofonista a tocar jazz maravilhosamente e me perguntei porque razão aquele senhor com um talento incrível tocava no metro onde muita gente nem reparava na sua presença enquanto artistas que já não vendem música mas sim a sua imagem faziam dinheiro e eram reconhecidos mundialmente... Especulo agora que talvez quisesse levar a sua música ao mundo de uma forma diferente, levando o seu estilo musical e o seu talento a quem o quisesse ouvir, apenas pelo gosto de tocar em troca de nada, ou em troca de um olhar, um sorriso como o que me surgiu nos lábios ao ouvir tão bela e profunda melodia, ainda a recordo apesar de já não me ser possível reproduzi-la oralmente para que as pessoas a percebam, ainda a oiço, num recanto da minha memória. Foi nesse momento que o meu espírito despertou novamente para a música...

Inevitabilidade da vida

Esta visão da vida pode parecer um pouco mórbida mas é apenas a realidade. Nós nascemos apenas com a certeza de que um dia vamos acabar por morrer, eu gostaria de pensar que vou morrer de velhice e passar por todas as fases maravilhosas da vida mas é incerto, o nosso futuro é incerto, estamos envoltos nas redes do destino, encaminhando-nos apenas para aquilo que nos está predestinado, ou não.
Gostava de um dia poder olhar-me ao espelho e ver rugas na minha cara, ver cada um desses sulcos na minha pele e ver beleza, momentos, por baixo dos olhos devido a todas as lágrimas que chorei, nos cantos dos lábios por todos os sorrisos, todas as gargalhadas, espero ainda ser capaz de rir ao atingir essa idade avançada, o corpo dorido e gasto por tudo o que vivi, os saltos que dei, as cidades longínquas que percorri, mas quero manter os olhos com a igual vivacidade da infância, com o brilho vivo da juventude, a sabedoria adquirida com as vivências...
De onde vem toda esta preocupação extrema com o aspecto? Para que precisam as pessoas de todos esses produtos que supostamente as fariam mais jovens? A juventude não reside no exterior, apenas nós, a nossa forma de ser podem ditar a nossa idade, não é porque desde que nascemos o planeta já efectuou o seu movimento de translação um certo número de vezes que somos mais velhos ou mais jovens...
Há uma diferença entre antigo e velho, palavras que por vezes são usadas como sinónimos, antigo é como a pessoa que apesar de o mundo continuar o seu caminho permaneceu preso na sua época, vendo as pessoas e tudo a alterar-se em seu redor mas não se preocupando em acompanhar a evolução do mundo, enquanto algo velho, uma pessoa velha é alguém com experiência que não se deixou abalar pela passagem inevitável do tempo e permaneceu jovem, debaixo do aspecto enrugado e cansado está uma alma jovem, nova, renovada a cada instante pela vontade de viver...
Para todas as pessoas que olham o espelho e temem o lugar onde vai aparecer uma ruga um dia, que querem adiar o momento da velhice, apenas recordem que se o atingirem é porque viveram, se vos surgirem rugas nos olhos é porque viram o mais belo que o mundo tinha para vos mostrar, se a vossa audição começar a falhar é porque ouviram as mais belas melodias do mundo, porque viveram o suficiente para terem ouvido alguém a dizer-vos o quanto vos amavam, se no canto dos seus lábios se puderem observar os temidos sulcos é porque tiveram tempo suficiente para sorrir, chorar, amar...
Não se preocupem com o amanhã, vivam o hoje para que no dia seguinte possam recordar os momentos belos da vossa existência.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

As perguntas que nunca lhe coloquei

Conhece-me desde que nasci mas não acredito conhecê-lo realmente. Vou tratá-lo por você como o faço sempre, como sinal do respeito que sinto pelos anos que viveu, por tudo o que já viu.
Não sorri muito mas consigo ver a beleza que ostentava antes, aquela que está presente nos retratos a sépia e preto-e-branco que se encontram espalhadas nas paredes de sua casa.
Recordo os momentos em que trazia a sua câmara fotográfica na mão e me seguia pela casa, enquanto eu corria, ria muito alto e fazia imensas caretas, gravadas em pequenas fotografias de pouca qualidade que me fazem recordar e sorrir.
Admiro em si a forma como encara o mundo, a alegria que sente quando brinca com a minha irmãzinha, como fazia antigamente comigo. Invejo-a, por vezes. Por ter toda a sua atenção, ou quase toda. Gostava de quando íamos para o cimo de um armazém e olhávamos as estrelas, ou dávamos grandes caminhadas pelo monte.
Admiro a forma como aprecia o pequenos mundo onde vive mas tem necessidade de mais, e parte de três em três meses para Paris, cidade onde creio que reside a sua alma, o sítio a que chama lar. Não sei se isto é verdade. Nunca lho perguntei. Apenas me é difícil compreender por que razão abdica da companhia da sua mulher, minha avó, e da restante família. De que foge você?
Já alguma vez lhe disse quanto o admiro e adoro? Provavelmente quando era pequena, mas ultimamente temo-nos tornado cada vez mais distantes, como estranhos que continuam a falar por causa das memórias que partilham.
Adoro a forma como se ri quando falo ininterruptamente, nos breves momentos em que desejo contar-lhe a minha vida toda e as palavras se atropelam umas às outras. Sim. Gosto desse sorriso.
Olho-o agora, e pergunto-me por tudo aquilo que viveu e não me contou, as histórias da guerra, creio que se orgulha de ter lutado pelo nosso país, mas em que guerra? A minha ignorância em relação a si é imensa, mas acho que me agrada assim, gosto de imaginar a pessoa que foi, especular acerca do rapazinho que foi a brincar nas ruas ou talvez a trabalhar para ajudar a família, toda esta incerteza torna-o ainda mais especial.
Já vi ambos os seus lados, já senti ódio por si, talvez não fosse isso, talvez eu estivesse apenas desapontada com as suas palavras, mas recordando-o e recordando-nos vejo uma amizade estranha, até um pouco distante, entre duas gerações separadas por décadas, guerras, vidas...
Obrigada, avô, por tudo o que me deu, por me mostrar o céu, me tentar agradar não da típica forma materialista mas através de atenção, diálogo; obrigada por me mostrar o campo, o céu, as estrelas, por me guiar para a felicidade, por errar e me mostrar os erros que não devo cometer, tendo-o como exemplo.
Obrigada pelas perguntas que nunca coloquei.

Tentativa de crónica

Não me recordo da última vez que alguém conseguiu definir realmente a felicidade, talvez nunca o tenham feito, pois é difícil descrever as coisas que importam na vida. Mas, de onde vem? Porque surge inesperadamente em nós e desaparece dolorosamente deixando apenas a memória da sua existência até um novo encontro?
A felicidade é constantemente procurada pelas pessoas, tentam encontrá-la sob formas absurdas. Há quem pense consegui-la através de ideias materialistas e de ostentação, porém tudo isto é uma falsa felicidade. Se todas essas pessoas fossem despojadas de todos os seus bens, sentir-se-iam vazios como sempre o haviam sido, porque a felicidade reside na beleza simples da vida e não no número de dígitos que compõe a nossa conta bancária.
Eu sou feliz mesmo quando não o sou, pois tenho as memórias de melhores momentos em que tive vontade de rir, em que chorei porque sorrir não era suficiente, em que reencontrei a criança em mim porque só com uma alma de criança se pode ser feliz.
A felicidade é imutável?
Na sociedade em que vivemos actualmente há poucas pessoas que podem dizer-se felizes: as crianças, na ingenuidade das suas questões intermináveis, nas gargalhadas sonoras, na vivacidade e vontade de conhecer o mundo. Nos jovens vejo a gradual perda da infância, a procura pela sua personalidade, os dramas ilógicos, as incertezas, sentindo-se muitas vezes perdidos, incompreendidos. Criam amizades, riem de banalidades infantis, erram, sofrem enquanto lutam para encontrar o seu caminho e se encontrarem a si próprios. Em adultos, os sonhos perdem-se na sua maioria, ganha-se uma perspectiva mais realista da via, porém mais pessimista. Lutam pelo seu lugar neste mundo, por ficarem imortalizados pelos seus feitos na memória dos outros. Erram mais, vivem mais, magoam-se, vivem os seus melhores e piores momentos. Realizam-se (ou não), afastam-se por vezes da felicidade, esquecem-se que ela reside apenas em nós e que só temos de a encontrar. Vivem paixões fortuitas; formam família; partilham a sua felicidade com os outros e, ao atingirem a velhice, esperam ter feito tudo o que puderam para serem felizes; arrependem-se de coisas que fizeram e de outras que podiam ter feito, sabendo que os erros fazem parte do percurso; relembram momentos em que também eles foram crianças e procuravam conhecer o mundo, jovens procurando conhecer-se a si próprios, adultos a viverem e aproveitarem as oportunidades que a vida lhes deu... Têm a hipótese de reviver tudo através das suas memórias , reencontrando a felicidade nelas...
Tudo isto é dificultado pela nossa sociedade materialista, consumista e individualista, contudo como ser sociável que o Homem é, precisa de gente durante a sua vida, para o acompanhar, crescer viver. Alexandre Dumas disse que "o mais feliz dos felizes é o que faz os outros felizes". Nós precisamos dos outros assim como eles de nós. Por vezes, as memórias mais importantes giram em torno de pessoas que fizeram parte das nossas vidas por breves e indeléveis instantes, uma gargalhada é muito mais bela quando partilhada com os outros.
E eu, sou feliz?
Sou, sou uma pessoa feliz, completa. Sou jovem, vivi pouco mas o suficiente para experimentar a perda, a solidão, os dramas exagerados característicos da idade, mas tudo isto me encaminha para a felicidade, porque é impossível sentir-se feliz sem nunca ter conhecido a dor e após lágrimas vem sempre um sorriso.
Na minha memória tenho várias pessoas, algumas que nunca mais verei na vida, cujos nomes não recordo ou nunca cheguei a saber mas que me marcaram com as suas palavras e gestos, situações que me recordam o quão feliz sou e posso ser.
Quando se sentirem sós, tristes, procurem observar o mundo belo que vos rodeia, alheem-se da realidade em que vivem (tão dura por vezes), observem o infinito azul do céu, olhem as belíssimas estrelas que iluminam a escuridão nocturna e se mesmo assim ainda se sentirem sós, lembrem-se que aqueles de quem gostam e que realmente importam, olham as mesmas estrelas, como me recordou uma amiga quando também eu me havia perdido.

"A felicidade raras vezes está ausente. Nós é que não damos pela sua presença." Maeterlinck

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Moonlight

A lua está linda hoje, mas quem é que reparou nisso? Quem se deu ao trabalho de perder uma milésima do seu precioso tempo a olhar uma pedra que gira em torno da Terra? Quem se preocupou em reparar que hoje a lua está em quarto minguante, ostentando uma belíssima luz em forma de C?
Se não reparaste, ainda vais a tempo de correr para a janela e observar um dos magníficos fenómenos que presenciamos na Terra, esta luz de prata magnífica que na infância nos cativa porque simplesmente não sabemos porque é que está uma pedra branca a brilhar no céu, e como é que está ali suspensa e não cai, porque parece não se mexer apesar de nós mudarmos constantemente de posição, e porque à vezes parece um C e outras um D, e como aparece completa e por vezes não a conseguimos ver no céu... Todas estas perguntas me são colocadas agora por uma criancinha de 5 anos, que tal como eu me interrogava, também admira aquele brilho espantoso.
Para alguns a lua é tão insignificante como qualquer uma das pedras nas quais tropeçam, que esmagam, encontram no asfalto, sem interesse e que não merecem um breve vislumbre de soslaio.
Foi sob esta mesma lua que eu dei o meu primeiro e tímido beijo, e lembro-me que estava linda nessa noite, ou talvez tenha sido toda a magia do momento a torná-la ainda mais especial.
Foi sob este mesmo céu incrustado de pequenos diamantes do passado (sim, porque nós apenas vemos o passado destas estrelas, algumas são a imagem de si próprias há séculos) que chorei por diversas vezes, quando senti a perda, refugiando-me na aconchegante luz das corpos celestes. Foi por elas que numa noite gélida de Inverno (e quem já abriu uma janela às 4 da manhã numa terrinha no meio da montanha sabe do que falo) me sentei no parapeito da janela a observar o infinito inexplorado do universo, a minha mente livre de questões, apenas os sentidos a usufruirem da beleza, as mãos a gelarem até ser impossível senti-las, a garganta a doer, mas a alma completa, preenchida, lançada nas teias do sonho, preparada para enfrentar as adversidades do dia seguinte porque, à noite, teria sempre o consolo das estrelas e da lua.

Será assim tão mau lançar um olhar a tudo o que nos rodeia?

Quando é que as pessoas começaram a alhear-se da realidade, a viverem num mundo à parte, criado pelos humanos para os humanos, onde as estrelas se tornam indistintas no céu azul devido à iluminação tão forte e desnecessária que nos priva dos momentos em que tentamos diferenciar as constelações no céu, procurando padrões, unindo-as para formarem desenhos.
Quando é que perdemos a capacidade de sonhar?

Não te esqueças, se ainda não viste a lua hoje, ainda vais a tempo.

...

Estou ligeiramente farta da monotonia que a minha escrita tem adquirido ultimamente, os sentimentos são os mesmo, as situações similares. Os momentos em que o meu corpo (e a minha mente) mais sentem necessidade de comunicar com o papel são nas situações de tristeza, ansiedade, angustia, nostalgia mais recentemente, mas de momento sinto-me renovada, decidida a mudar a minha atitude perante a vida e talvez comece a escrever textos mais alegres e mais leves. Sou uma fã de histórias para crianças ou apenas pequenas histórias que nos marcam com as suas personagens simples cujos autores recorrem muitas vezes a típicos lugares-comuns, mas que marcam a infância de muitos de nós, como as típicas princesas de que ouvíamos falar, aprisionadas no alto de torres, a sofrerem nas mãos da madrasta má, mas acabando sempre por arte de magia com a pessoa perfeita para elas...
As histórias que recordo eram mais únicas, especialmente contadas para mim, inventadas no momento e esquecidas no momento pelo seu emissor, eram histórias de bruxas, de raparigas que fugiam para bosques que eu conhecia à procura de um pouco de aventura, histórias como a de alice, muitas vezes sem nexo, como uma da cidade onde um senhor decidiu começar a tratar as coisas por um qualquer outro nome que não o que lhe havia sido estabelecido num tempo que ninguém recorda hoje...
Talvez passe um pouco pelas crónicas e críticas, porque o meu espírito crítico parece ter surgido novamente, talvez sejam influências da filosofia, do inconformismo, do perfeccionismo (doença de que sofro há muito tempo), e terei de regressar mais tarde aos pequenos relatos indirectos da minha vida, em que simplesmente me deixo levar pelas palavras, as deixo sair, fluir naturalmente enquanto a minha mente fica limpa, positivamente vazia e alheada por instantes de tudo o que me preocupa.
Queria agradecer aos poucos seguidores (mas bons) que têm lido as pequenas coisas que escrevi até agora, obrigada Aninha pelos conselhos e por indirectamente me teres levado a sair da minha zona de conforto e escrever sobre algo mais, Adília que me tens tentado dar ideias (se me falares do Rodrigo Santoro provavelmente fico inspirada) e por teres seguido os avanços do meu blogue e me teres compreendido quando outras pessoas não conseguiram ou nem sequer tentaram, a futuros visitantes e seguidores não tenham medo de experimentar algo novo e espero que gostem...

sábado, 3 de outubro de 2009

Estou só. A minha companhia constante é o silêncio, as palavras que ecoam na minha mente, os meus pés a arrastarem no solo enquanto me movimento sem rumo, cruzando-me durante estes meus percursos com vultos, sombras, talvez sejam pessoas, mas os seus rostos nada significam para mim, são pessoas tão diferentes de mim, tão superficiais, que não conseguiriam perceber o vazio que agora me acompanha.
Ela partiu. Ainda não percebi se o fez voluntariamente, talvez nem tenha sido a culpada de toda esta situação, mas também não a culpo a ela, ela está melhor assim.
Perdi as gargalhadas que partilhávamos furtivamente entre duas aulas, as nossas conversas que para tanta gente seriam indecifráveis, as verdades que apenas as duas conhecíamos e éramos capazes de compreender. As palavras fugazes que trocamos ao telefone apenas servem para atenuar por instantes a distância que nos separa e me fere terrivelmente, para depois de se ouvir o adeus a atravessar todos estes quilómetros seguido apenas do silêncio do fim da chamada, caio na dura realidade de que não estás mais aqui para me abraçar quando preciso desesperadamente de um consolo silencioso e caloroso, já não terei as nossas situações parvas e hilariantes que preenchiam os meus dias tornando-os completos, felizes, únicos e impossíveis de repetir...
O caminho para a cerejeira está tão inacessível como a possibilidade de te abraçar a uma quinta-feira de manhã, gostava de poder sentar-me a observar os seus ramos despidos. Acho que tal como eu está à tua espera para florir, para voltarmos a viver esse magnífico momento de pura beleza e magia, quando descobrimos aquela árvore delicada naquele canto esquecido que decidimos explorar.
Como gostava de te ter aqui neste instante, ouvir-te a rir com as tuas gargalhadas contagiantes, rir contigo até chorarmos e não recordarmos a razão pela qual tudo isto começou.
Agora não estás tão longe, talvez a uns meros 50 minutos de distância mas permanece a nostalgia de não te ter comigo 8 dias da semana, de me ser impossível atravessar a distância que nos separa porque seria um disparate percorrê-la apenas para te ver durante 5 segundos e regressar à minha vida medíocre.
Saudade. É o sentimento que mais me persegue, mas talvez a questão não esteja no espaço que se intrepõe entre nós mas na parte de mim que levaste contigo quando partiste sem me avisar.

"A saudade não está na distância das coisas, mas numa súbita fractura de nós, num quebrar de alma em que todas as coisas se afundam."
Virgílio Ferreira

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

O vento trás até mim as melodias do oceano, o cheiro agradável da maresia.
Caminho até à água atravessando a areia granulosa, que se cola aos meus pés pelo caminho, tornando-se cada vez mais húmida com a proximidade ao mar. Deixo as sandálias que trazia despreocupadamente na mão num alto no areal resultado de uma escavação infantil. Avanço cada vez mais em direcção ao mar, e pouso levemente o pé direito na orla da água onde a profundidade não ultrapassa um mísero centímetro. A água fria provoca-me um suave arrepio.
Decido entrar, caminho em direcção à água, com o meu vestido azul a esvoaçar à minha volta confundindo-se com o azul do mar... A água já me tapa os joelhos, a peito, o queixo, mergulho finalmente... o azul rodeia-me de uma forma reconfortante, preenchendo os espaços vazios do meu corpo, fazendo-me esquecer a saudade e a dor que me perseguiam ferozmente.
Olhando para cima vejo um círculo de luz serpenteando na água, alguns peixes nadam à minha volta, pequenos animais coloridos.
O ar começa a escassear nos meus pulmões, o corpo começa a dar sinais de desespero vendo a aproximação do fim, mas eu sinto-me completa, sinto-me em casa, no meu próprio elemento.
Não há medo, não há dor, apenas a minha mente a vacilar, a minha alma a abandonar lentamente este corpo ferido e magoado.
De repente o azul dá lugar a uma escuridão impenetrável, sinto-me a flutuar, sem peso, sem corpo... com o fantástico azul de safira como minha última memória.

domingo, 16 de agosto de 2009

Palavras no escuro

Que escrevo eu nesta escuridão? Não percebo. Não consigo distinguir as palavras a tinta das sombras que me rodeiam. Sinto-me cega, incapacitada pela falta de luz, apenas os contornos me guiam nesta ardilosa tarefa.
Só conheço as palavras que recordo no meu pensamento.
Uma luz acende-se abruptamente. Instintivamente os meus olhos fecham-se e eu retraio-me, já me habituara à falta de luminosidade.
Sinto-me perdida. As palavras que há pouco nada significavam fluem agora com uma naturalidade renovada. Assola-me novamente esta sensação magnífica que já esquecera.
Continuo sem escrever nada de interessante, apenas escrevo. Escrevo simples palavras que formam frases mais complexas e originam um estranho e confuso texto baseado na realidade do que sinto e não em pretensionismos falsos que muita gente espera que escreva...
Esforço-me em vão por encontrar um tema interessante para debater comigo própria, para apresentar aos outros o meu ponto de vista, mas nada surge, ou talvez haja demasiadas opções.
As minhas emoções estão num turbilhão. Parecem uma tempestade incontrolável e imprevisível, tanto para expressar mas tão poucas palavras para o fazer.
Apenas espero que as palavras surjam com a mesma naturalidade com que oiço o vento sibilar entre as folhas, e consigo ver uma réstia do brilho prateado da lua, apesar de toda esta iluminação artificial que tão desagradavelmente oculta as maravilhas da noite e ao mesmo tempo me fere os olhos impedindo-me de vê-las.

Dor

A solidão que me assombra desfigura todo o meu rosto, lavando-o com as minhas lágrimas que tendem teimosamente em turvar-me a vista num lusco-fusco confuso que torna tudo o que me rodeia imperceptível para estes olhos maltratados.
Sinto-me uma prisioneira de mim mesma, deste inútil corpo humano que tão facilmente cedeu aos caprichos do tempo enviando-me para um precipício sem fundo.
Caio. Caio cada vez mais, está cada vez mais escuro, mais frio. Quando finalmente parece que me ergo a queda é mais violenta e dolorosa, trespassando não só o corpo como a alma. Trás-me dor, deixa em mim marcas, cicatrizes, que só o tempo curará (ou talvez nem ele tenha capacidade de o fazer). Quem me observasse veria um sorriso falso, alguns sinais pelos quais poderia culpar o cansaço, mas fixando-se nos meus olhos veriam a escuridão que agora encobre o seu brilho antes tão resplandescente.
Choro. Pois nada mais me resta fazer. Já falei, chorei, escrevi, chorei, voltei novamente a chorar.
Tento. Tento acalmar a dor que me magoa o peito, o vazio que o habita, tento escondê-lo pressionando-o com os meus braços, e apercebo-me assim da minha fragilidade.
A minha cabeça lateja, já nada mais tenho para chorar. Aos poucos permito que o cansaço e o sono me dominem, arrasto os pés com grande esforço para a cama e deito-me. Adormeço. Não sonho nesta noite, estou demasiado vazia para isso.

Olhares

Uma nova cidade, um tempo diferente, novas caras com quem me cruzo ocasionalmente. Nos seus rostos reconheçoos das pessoas que me faltam. Admiro a sua despreocupação, a forma como não se fixam no que os rodeia, em tudo aquilo que não os engloba directamente, alheando-se do mundo, com a sua própria música, as suas conversas, os seus problemas e preocupações, desconectados da realidade mundana.
O meu olhar já se cruzou com uns olhos azuis, perscrutando a sua interminável profundidade, procurei na escuridão de uns olhos negros um lampejo curiosidade pela movimentação intermitente que os rodeia. Apenas encontrei um certo desdém devido a um olhar tão inquisidor da minha parte, uma indiferença quase que insultuosa como se não valesse a pena observar os outros pelo simples motivo de nunca os ter visto na vida.
Ao olhar o mundo podemos descobrir-nos a nós próprios, vemo-nos retratados como um pai de família que carrega a filha pequena nos ombros, um jovem casal apaixonado, até como um mendigo que humildemente pede um pouco de ajuda para poder continuar a sua vida pobre mas mais rica em conhecimento que a de muitas pessoas que não se fixam em nada.
É como ficar sem reacção ao observar um controverso Dali, ao ouvir uma bela composição de Mozart, ao ver uma cerejeira florir mesmo ao pé de nós e não dirijir um olhar a esta raridade e beleza pura da natureza.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Delírios Noctívagos

Uma brisa suave entra pela janela aberta do quarto. Vem talvez para suavizar o ar abafado que se sente na divisão. Talvez venha aconchegar a rapariga que é suavemente embalada pela música que melodicamente soa na aparelhagem. Provavelmente é apenas uma companhia refrescante que vem diminuir o vazio do quarto.
Ela chora, como o faz todas as noites, ou quase todas, quando as pessoas dormem, as pálpebras se fecham e é impossível julgar porque não se vê. Chora sem motivo algum, apenas para sentir as lágrimas salgadas a molharem-lhe as faces.
A sua mente vagueia por caminhos que desconhece, sonha acordada com uma realidade virtual que é tão real para si, o seu mundo perfeito, o lugar onde tudo é magnífico e belo, onde as lágrimas não têm razão para brotarem, só se ouvem melodias alegres, as palavras soam mais agradáveis, o sonho reina, o pensamento flui, a alma imagina e sorri.
Quando uma das lágrimas lhe toca o rebordo do lábio, ela retrai-se e acorda do delírio fantasioso e sorri com a facilidade com que se alheia da realidade, e a rapidez com que retoma o seu lugar na grande cama de casal que ocupa quase todo o quarto. O rádio persiste com as suas músicas calmas que embalam e ajudam a adormecer como uma inocente canção de embalar. Mas não hoje. Hoje ela não quer dormir. Quer aproveitar as maravilhas da noite de que é provada devido às ideias predefinidas de que temos de dormir todas as noites. Ela quer ver as estrelas, admirar a pureza da lua, o brilho místico do luar, apreciar o silêncio que chega quando o sol se põe no horizonte e a incita a reflectir, a meditar, a pensar, a sonhar e até a voar…
Boceja. Flecte os músculos da laringe, faringe, maxilar, numa inspiração forçada, devido ao seu lento ritmo respiratório. E por um instante a sua mente regressa às aulas de Ciências, voltando novamente ao ambiente do seu quarto com um sorriso.
Umas belas notas de piano soam no rádio, transportando-a para o mundo imaginário em que movia os dedos tão delicada e habilidosamente como os grandes mestres nas teclas brancas e pretas de um piano de cauda, compunha maravilhosas melodias tais como as de Chopin, Bach, Beethoven, Mozart, Debussy, partituras carregadas de sentimento, cada nota, cada sequência melódica gerando uma sensação diferente em cada pessoa, levando-as a imaginar na sua mente a letra perfeita para aquela música, sendo assoladas de palavras que expressem aquilo que são e sentem, a nostalgia ou uma previsão do futuro, a paixão, a dor, tudo numa simples melodia.
Outra lágrima. Esta baloiça na ponta do seu nariz caindo finalmente nas costas da sua mão direita, sobressaltando-se. Já chega de devaneios por hoje. “Boa noite”, despede-se mentalmente de tudo o que a rodeia, absorvendo cada detalhe, como a fotografia que pende no espelho, a aparelhagem que tanto adora, mais velha do que ela própria, os quadros que cobrem a parede, as inúmeras fotografias, as a aguarela, o cheiro a incenso, o fumo deste que serpenteia no ar, a cortina que suavemente abana com o vento. Olha tudo como se fosse a última vez… “Adeus”.